Todo mundo escreve sobre os lugares em que foi. Menos o meu irmão, porque ele não escreve essas coisas, só sobre processos. E aí que eu escrevi sobre o Paraguai. Sobre Assunção, na verdade. Minha primeira viagem internacional - olha que beleza! - foi para o Paraguai.
E se você está de férias, não vá a Assunção. Vá pra uma praia do Nordeste, pra uma cidade histórica do interior de Minas Gerais, pra alguma cidade com belezas naturais, como as da região da Chapada Diamantina, ou para alguma capital brasileira cheia de atrativos. Mas não vá a Assunção. Se você tem uma semana de folga, também não vá a Assunção. Agora, se você está fazendo um tour pela América Latina, conheceu o sul do Paraguai ou qualquer outro lugar e está subindo, pode até dar uma passadinha. Mas dois dias são pra lá de suficientes. Ou então vá a Assunção se realmente não tiver outro jeito. Tipo: um parente seu próximo morreu por lá ou você tem que trabalhar. Bem, eu tinha que trabalhar.
Não é que a cidade seja ruim. Me surpreendeu pro lado bom. Mas é que fui esperando o pior. O pior do pior. A cidade não é suja, as pessoas não são chatas, não vi criminalidade, não comi mal e não gastei muito dinheiro. Mas não tem muito o que fazer. O que me surpreendeu mesmo foi a arquitetura da parte histórica do centro. Muito bonita, imagino que seja da época da colonização. É até bem conservada.
Os monumentos e prédios históricos são legais. Palácio do Governo, o antigo Palácio do Legislativo, a Catedral, o Palácio dos Leões, a Universidade Católica e alguns museus. Tem alguns locais que são espécies de santuários em homenagem a mártires da luta contra a ditadura, que foi bem forte no Paraguai e durou mais de 30 anos. Isso me fez lembrar Itumbiara. É que tem uma história de que Alfredo Stroessner, o ditador, passou um tempo no Hotel da Vila de Furnas quando deixou o Paraguai deposto, uma coisa assim.
Então, continuando, dá para passear de barca no Rio Paraguai. Não fiz isso, mas vi o porto. E, à beira do rio, está um dos maiores contrastes de Assunção. Ao lado do suntuoso Palácio do Governo tem uma favela. Há contraste nas ruas da capital paraguaia. Enquanto executivos e burocratas passeiam pelo centro no horário de almoço, dividem espaço com meninos de rua (muitos) e ambulantes (muitos mesmo). O comércio informal é livre.
Aí você me pergunta: "Mas se a pessoa quiser fazer compras, vai a Assunção, certo?". Certo. Mas se for só pra fazer compras, só mesmo, que vá a Ciudad del Leste, que é mais perto, na fronteira, e contempla o objetivo sem maiores problemas. Mas que as compras no Paraguai compensam, isso compensam. Em qualquer lugar. E, se você está em Assunção, faça compras sim. Tênis, perfumes, eletrônicos, artigos de marcas esportivas famosas. Tudo por um preço bem mais baixo, por causa do imposto baixo. É aproveitar pra trazer a muamba. Até porque, quando você disser que está indo ao Paraguai, todo mundo já vai achar que você está indo lá pra isso mesmo, pra "muambar".
A galeraRanzinza que sou, não fui tão ranzinza no Paraguai. Precisava de informações e serviços, então tinha que tratar bem as pessoas e fazer amizades. O mensageiro do hotel foi logo me perguntando de que cidade eu era. Diante da resposta, disse que assistiu a Dois Filhos de Francisco, que a mãe e a irmã dele choram vendo o filme. Pergunto se ele gosta da música dos caras - é claro que eu sei que Dois Filhos de Francisco conta a história do Zezé di Camargo e Luciano. Aí ele diz que sim, acha linda. Mas gosta mesmo é de Raça Negra. Fim de papo. Mas o que me interessava ele já tinha me dito. Tinha, sim, wireless no quarto, "sin custo".
O que as pessoas mais querem saber é se o lugar de onde venho tem praia. "Não, sou como vocês", eu respondia. O Paraguai não tem praia e o pessoal fica fascinado quando alguém conta das maravilhas que é o litoral. A maioria das pessoas com quem falei só esteve em uma cidade brasileira: Foz do Iguaçu. As cataratas e tal. Querem saber onde fica Goiânia. Digo que é no centro do País e contam que sabem onde fica Brasília.
O futebolFoi o futebol que me levou a Assunção. E o que achei mais legal na cidade foi conhecer o Defensores del Chaco. Por mim, faria vários passeios futebolísticos pelo mundo inteiro. Adoro conhecer estádios, ver jogos em qualquer lugar. Então, se você também é assim, vá ao Defensores del Chaco em Assunção. E ao estádio do Libertad, que eu não conheci, e ao Pablo Rojas, que foi o meu local de trabalho - à propósito, fui cobrir um jogo do Goiás contra o Cerro Porteño, pela Copa Sul-Americana. Só não pude ir ao museu do Defensores, o que foi chato.
Na rua, velhinho vendendo bandeira quer falar sobre futebol. Me pergunta o que conheço do futebol do Paraguai. Gamarra, Arce, o novo time dos dois (o Guarani), o que li sobre o Cerro Porteño pra fazer matéria do Goiás e só. Pergunto o time do coração. Ele me pergunta qual é o maior time do Paraguai. Digo que não sei. Tem o Cerro e o Libertad, que são os dois maiores rivais. Um é mais popular, o outro conquistou mais títulos. Vou lá saber que o Libertad ganhou três Libertadores e sei lá quantas Mercosul, Interamericana e sei lá mais o quê. Sei que ganhou Libertadores, mas não que fez isso três vezes.
Devia ter tirado onda quando ele me perguntou se o Goiás é time como Flamengo, Palmeiras e esses grandes. Devia ter respondido: "Sabe nada de futebol brasileiro, hein?". Mas não posso culpá-lo. De jeito nenhum.
EntrandoO carinha da imigração disse que meu documento estava vencido. Era a carteira de identidade. Não entendi nada. É que não é preciso passaporte pra ir ao Paraguai. Você pode entrar no país com o seu documento de identificação. Eu tenho passaporte, mas não queria usar porque ele tem uma informação errada. Diz que eu nasci em Goiânia, mas eu nasci em Itumbiara. Fico com medo de me acusarem de falsidade ideológica. Vai saber. E é por isso que usei a minha carteira de identidada pra entrar lá. E aí me vem o carinha dizer que ela está vencida. Não dei muita atenção. Só disse a ele que não existe isso de prazo de validade pra carteira de identidade.
Mas é aquele negócio. A carteira de identidade tem mais de dez anos, mas me disseram que eles só levam isso em conta se o documento não der pra identificar a pessoa. E a minha identidade, mesmo com mais de dez anos, me identifica perfeitamente. Aí respondi ao paraguaio com um ar de "eu só saio daqui pra entrar no Paraguai e não pra voltar pro Brasil".
Uma beleza de espanholNão falo uma palavra em espanhol. Gracias, buenas (e derivados, como buenas noches, buenos dias), la cancha, delantero, arquero e médio-campista, periodista, periodico, quanto cuesta, cerrar (cerrado, que não é o bioma), tomar un taxi. E aprendi viernes, que é sexta-feira, mas às vezes eu me pegava dizendo "until viernes" pra dizer que eu ia ficar até sexta-feira em Assunção. Sou um desastre mesmo. Mas eu aprendi uma palavra importante: capullo. Só não consegui usá-la, porque achei melhor não xingar ninguém no Paraguai. Não em voz alta.
A moeda"Ochenta mil", me responde o taxista sobre o valor da viagem até o hotel do Goiás. Chegando no Paraguai, só me preocupei mesmo em encontrar alguém do clube e fazer matéria, o motivo que me levou, inclusive, ao Paraguai. Pensaria no meu hotel depois.
Aí o meu companheiro de viagem me olha até assustado ao ouvir o valor do táxi. Nem me importo. Na verdade, não tô nem aí. Como eu vou saber se o valor é o justo ou não? "Não conheço Assunção, você conhece?", pergunto a ele. Então, vamos nessa. A única coisa que eu sei é fazer a conversão pra reais, porque não sou retardada. Mas vou lá saber se o cara tá cobrando a mais ou não. Isso só vou descobrir depois de pegar mais uns dois táxis.
É difícil entrar no ritmo da moeda paraguaia no início, mas depois fica ok. Os números são sempre altos, mas eu tinha lido antes que é melhor trocar o dinheiro na moeda local e usá-lo assim. Eu até gastei alguma coisa em reais, mas gastei mesmo em guaranis.
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No final das contas, o que as pessoas querem é fazer a diferença. E quando isso não acontece, bate aquela sensação de vazio, de solidão, de inutilidade, de que nada importa muito. Bate um comodismo. Que diferença você faz? Já pensou nisso hoje? Se não faz diferença você ser você, é melhor desistir até disso mesmo, desse lance de ser você. Mas aí eu não desisto. Faço por mim.
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Trabalhando nas playlists. As mais difíceis que eu já fiz.