Quem passa por aqui certamente leu sobre as minhas aventuras no Rally dos Sertões (o pouco que escrevi neste blog e a cobertura no blog do DM). É, gente. Não acabou ainda. Já tem mais de uma semana que o negócio acabou e eu ainda estou falando disso. É que vou postar aqui os relatos de três companheiros de viagem, que também são legais de ler.
A maioria dos jornalistas que acompanharam o Sertões escreveu algum relato pessoal sobre a experiência. Muitos eram marinheiros de primeira viagem, como eu, a Carol, a Camila, o Robson Curitiba, o Julio e o Martín. O Robson Goiano cobriu o Sertões pela terceira vez, assim como Tiaguinho e Solano. O Thiago Rocha acompanhou a caravana pela quarta vez. A Isis e a Zarhi também já tinham ido.
Bem, vou colocar aqui o texto do Julio Calmon, repórter do Jornal do Brasil, sobre a sua navegação. Ele escreveu outro relato super legal em Palmas, mas eu não encontrei no site. Como dizia o Gilmar, "o Julio quase não dormia à noite, mas dormia o tempo todo no carro". Acho que ele não vai gostar disso. O Daniel Costa, o Dani, cobria o Sertões para o site Webventure. Trabalhava pra caramba. E me deixou dormir na cama em Cavalcante, enquanto ele dormiu num colchão horrível na casa em que alugamos. O Robson Curitiba me emprestou blusa de frio, tomou cerveja e comeu espetinho comigo, e me ajudou no bóia-cross no rio. Eu tinha que retribuir de alguma maneira, então o ajudava a arrumar lugar para tomar banho. Tá bom, né Curitiba? Ah, Julio e Curitiba já comentaram o blog.
Poeira, adrenalina e suor: Sertões 2005
Por Daniel Costa, do site Webventure
O Sertões é uma aventura para todos que resolvem desafiá-lo, dos mais conceituados pilotos do país, passando pelos melhores navegadores, mecânicos, motoristas, autoridades, organizadores, um batalhão de voluntários e a imprensa. Uma trupe itinerante de aproximadamente 1.200 pessoas que cruza o Brasil todos os anos pingando de cidade em cidade.
Esse ano, em especial, ao invés de cruzar o Brasil a prova fez um laço, começou e terminou em Goiânia. A chegada foi na última terça-feira, depois do almoço. Ao invés da cena clássica dos carros na beira do mar em Fortaleza, aguardados por uma multidão na praia, o Sertões foi recebido por cerca de uma centena de curiosos, no mesmo lugar onde aconteceu a largada promocional.
Os mais interessados na chegada dos veículos eram os jornalistas, ávidos para concluírem o trabalho de doze dias de muita aventura e, como não podia deixar de ter, muito perrengue. No começo de tudo, a primeira impressão para os que viajaram de São Paulo para Goiânia já anunciava o que viria pela frente. Após 14 horas de ônibus entre uma cidade e outra, o hotel não abriu vaga para acomodar os viajantes antes de duas horas de espera.
Começa a correria - No Sertões não há lugar para sono, como ficou comprovado em diversos acidentes. O prólogo começou seis horas após a chegada dos jornalistas que vieram de ônibus para Goiânia. A maratona começou ali.
Depois vieram mais cinco dias dormindo em barracas ou em salas improvisadas. A lembrança das belezas que vimos e as pessoas que conhecemos durante o dia se misturava com a ansiedade do que viria no dia seguinte e embalava o sono. Estar ali, no meio do nada, com pouca estrutura, não era problema para ninguém, fazia parte do jogo. Banho? Em vestiários das escolas que ficávamos ou na casa de algum camarada que nos abrisse a porta quando pedíamos. Nessas e outras que apareceu grande parte dos personagens que ilustraram a reportagem dos cerca de 40 jornalistas presentes.
No país dos extremos, a viagem ao cerrado no Rally dos Sertões só poderia comprovar a tese. Na maioria das salas de imprensa, em hotéis, improvisada nos colégios estaduais ou até mesmo construídas na beira do lago Luis Eduardo Magalhães em Palmas, enquanto os jornalistas penavam para conseguir conexão por rede, os que tinham Wi-fi conseguiram enviar seus dados sem o menor problema.
Em Santana do Araguaia, por exemplo, em qualquer lugar da região urbana do município havia conexão sem fio. Mas deixa estar, ao chegar de volta nas redações, com certeza o clima é unânime. Já estamos na contagem regressiva para o Sertões 2006.
Por 10 dias o cerrado virou sertão
Por Robson De Lazzari, da Gazeta do Povo, de Curitiba
Dez dias para percorrer 4.500 quilômetros pelo interior do Brasil. Este foi o desafio aceito por mais de 300 pilotos e navegadores, distribuídos em 227 veículos (carros, motos e caminhões) na 13.ª edição do Rally Internacional dos Sertões. Em 2005, a maior prova off-road do país seguiu um trajeto diferente. Ao invés do sertão nordestino, o cerrado do Centro-Oeste e regiões vizinhas à floresta amazônica. A mudança de habitat não diminuiu as dificuldades da disputa: quebras, acidentes, noites mal dormidas e muita emoção marcaram a competição, acompanhada com exclusividade para a imprensa paranaense pelo repórter da Gazeta do Povo, Robson de Lazzari, que conta os bastidores dos dez dias em que o cerrado virou sertão.
31/7: de Goiânia (GO) a Aruanã (GO)
Para quem estava havia três dias em Goiânia, o começo do Rally dos Sertões foi até demorado demais. Toda a expectativa se transformou em realidade nos 500 quilômetros de estrada entre a capital de Goiás e a pequena Aruanã, cidade de 5 mil habitantes, na divisa com Mato Grosso. Os poucos trechos de asfalto eram rapidamente esquecidos no meio de muita terra, poeira e buracos. Porém, havia espaço para as belas paisagens do cerrado. Quando a caravana chegou a Aruanã, todos foram recompensados com a visão da margem do rio Araguaia. O calor quase insuportável era rebatido por uma aprazível brisa que vinha da água. Na prova, os favoritos começavam bem. Os bicampeões dos carros, Guilherme Spinelli e Marcelo Vívolo, largaram na frente. Entre as motos, Jean Azevedo, e nos caminhões, Ricardo Domingues e Nilo de Paula, também confirmaram os prognósticos.
01/08: de Aruanã (GO) a São Félix do Araguaia (MT)
Assim que os jornalistas despertaram (às 3h45 da madrugada), mal sabiam que estavam prestes a enfrentar o dia mais longo e difícil do Sertões 2005. Além da distância entre Aruanã e São Félix do Araguaia (636 quilômetros), o principal adversário eram os buracos nas estradas de terra. Rodovias federais que cortam o estado do Mato Grosso são inacreditavelmente precárias e fizeram o deslocamento durar 12 horas. Pelo menos algo compensava: as admiráveis paisagens da região Centro-Oeste. O cerrado dominou o trajeto em intermináveis vistas de ambos os lados da pista. Matas baixas que contrastam com a vegetação ciliar da beirada dos rios. Na desgastante prova, Kléver Kolberg e Luiz Palu vencem entre os carros. O veículo de Spinelli não completou o percurso e o piloto perdeu muitas posições. Nas motos, Jean Azevedo seguiu imbatível; nos caminhões Carlos e Guido Salvini venceram.
02/08: de São Félix do Araguaia (MT) a Santana do Araguaia (PA)
Após uma noite de sono precário, sobre um saco de dormir no chão de uma sala de aula, a reportagem da Gazeta do Povo seguia para conhecer mais um estado brasileiro: o Pará. Foram mais 600 quilômetros entre dois municípios banhados pelo Rio Araguaia. No caminho para Santana do Araguaia, mais uma bela constatação: as paisagens agora não são apenas do cerrado. Na porta de entrada da floresta amazônica, vários trechos de mata fechada se destacavam. No rali, os futuros campeões dos carros, Edu Piano e Rogério Almeida ganharam a etapa e assumiram a liderança. Nas motos, o chileno Carlo de Gavardo começou a se firmar na segunda posição e o espanhol Marc Coma, constantemente punido por infringir a velocidade, ameaçou desistir. Entre os caminhões, os terceiros vencedores diferentes em três etapas: Luciano Cunha e Carlos Brites.
03/08: de Santana do Araguaia (PA) a Palmas (TO)
O receio de ficar preso no congestionamento para atravessar a balsa sobre o Rio Araguaia na fronteira do Pará com Tocantins fez os jornalistas saírem na noite anterior à prova e dormirem logo após a travessia. A decisão trouxe um prêmio de 40 minutos, tempo que durou a travessia do rio: um céu estrelado sem fim no meio do silêncio e da escuridão. No dia seguinte, em Palmas, mais atrações na mais nova capital brasileira. O calor de 37 graus foi enfrentado com vários mergulhos nas praias do Rio Tocantins. Na competição, Klever Kolberg e Luiz Palu reagiram, vencendo a etapa. Nas motos, Coma seguiu com problemas e Gavardo venceu novamente, mas não atrapalhou a liderança de Jean Azevedo. Já nos caminhões, tudo embolado. A segunda vitória de Domingues e de Paula não impediu que os regulares Amable Barrasa e José Papacena chegassem à liderança.
04/08: de Palmas (TO) a São Félix do Jalapão (TO)
Dentro do estado de Tocantins, o comboio do Sertões invadia uma área praticamente inexplorada. O Deserto do Jalapão impressionou pela beleza e por revelar realidades desconhecidas da grande maioria dos brasileiros. Na pequena São Félix (cerca de mil habitantes), nem parece que estamos no século 21. Apenas um telefone público atende à população e o contingente de policiais da cidade foi mais do que dobrado pela presença do rali (de três para oito). Já preparada para enfrentar a noite em barracas, a caravana do rali, por sorte, havia comprado em Palmas os ingredientes para um churrasco que serviu de jantar e animou o pacato lugar. Nos mais de 400 quilômetro de trecho cronometrado, a metade dos carros e motos ficou pelo caminho. Melhor para Piano e Almeida, nos carros, e Jean Azevedo, nas motos. Entre os caminhões a disputa seguia equilibrada, vitória dos Salvini e liderança para Barrasa e Papacena.
05/08: de São Félix (TO) a Natividade (TO)
Desbravar o Tocantins não é mesmo um belo programa de férias. Imagina ter de sair do deserto brasileiro pelo mesmo caminho que entrou, retornar à Palmas e só da capital ir para Natividade. Tudo isso levou cerca de 10 horas e quase 600 quilômetros. Pior era saber que a hospedagem, novamente, era dentro do acampamento de uma escola agropecuária. Lições de vida à parte, o rali seguia equilibrado. Nos carros, Spinelli e Vívolo já não tinham chance de vencer, mas levaram a etapa. Entre as motos, Coma abandonou com problemas mecânicos e a disputa se restringiu a Azevedo e Gavardo, que ganhou a etapa do dia. Nos caminhões persistiu o equilíbrio. Mesmo sem vencer, Barrasa e Papacena se distanciaram em primeiro. Cunha e Brites foram os mais rápidos no dia.
06/08: de Natividade (TO) a Cavalcante (GO)
Passado o rústico Tocantins, o Sertões não trazia facilidades pelo interior de Goiás. Até Cavalcante, nas proximidades da Chapada dos Veadeiros, os 329 quilômetros incluíam terra e asfalto. O consolo pós-viagem era saber que a região é cheia de cachoeiras, montanhas e rios. Os 32 graus do ?inverno? da região Centro-Oeste foram aliviados pela beleza das atrações locais. Um prêmio para quem desbravava o interior há sete dias. Porém, à noite, a casa dos jornalistas foi o ginásio de um colégio. Na competição, Spinelli e Vívolo venceram novamente nos carros, mas estavam muito longe dos líderes. Na categoria motos, triunfo do chileno Gavardo, e liderança cada vez mais sólida de Azevedo. Nos caminhões a nova vitória de Domingues e de Paula não ameaçou os regulares Barrasa e Papacena no primeiro posto.
07/08: de Cavalcante (GO) a Padre Bernardo (GO)
No caminho para Padre Bernardo, uma escala no Vale da Lua, atração mística da Chapada dos Veadeiros. Após três noites longe de uma cama, as dificuldades da viagem já são enfrentadas com naturalidade. A contagem regressiva para o fim do rali começava e fazia até esquecer que mais uma vez o sono seria no saco de dormir, apesar de estar dentro de um belo hotel fazenda freqüentado pelas elites goianas e brasilienses. Os 300 quilômetros de prova tiveram a travessia de vários rios, o que dificultou a etapa. Nos carros, Spinelli e Vívolo ganharam pelo segundo dia seguido, mas não incomodaram Pinao e Almeida. Nas motos, Jean Azevedo era mais líder do que nunca. Domingues e de Paula se firmaram no segundo lugar dos caminhões. Porém, distantes dos líderes Barrasa e Papacena.
09/08: de Padre Bernardo a Brasília (DF)
?Enfim, a civilização!? Esse era o grito de todos os participantes da 13.ª edição do Rally dos Sertões quando desembarcaram na capital federal. Em Brasília, tudo era uma maravilha: os banheiros limpos, o hotel confortável e a comida saborosa. Parecia um sonho chegar a uma cidade grande e estruturada. Para os competidores, a linha de chegada no autódromo da capital não significava que o percurso tinha sido de pistas tranqüilas e asfaltadas. A penúltima etapa passou por trechos sinuosos e em montanhas que tinham abismos dos dois lados. As definições já eram claras após a prova. Edu Piano e Rogério Almeida nos carros, Jean Azevedo nas motos e Amable Barrasa e José Papacena dificilmente perderiam os títulos no último dia.
10/08: de Brasília (DF) para Goiânia (GO)
Até parecia mentira, mas se tratava da mais pura realidade: o Rally dos Sertões estava acabando depois de 4.500 quilômetros pelo interior do Brasil. O final do imenso trajeto em forma de laço percorrido pela caravana trazia o resultado de uma experiência inesquecível. O Sertões 2005 também ficará eternamente na memória dos campeões. Edu Piano e Rogério Almeida, nos carros, ganharam guiando um Chevrolet, terminado com dois anos seguidos de predomínio da Mitsubishi. Nas motos, Jean Azevedo se consagrou como pentacampeão na primeira vez em que o rali brasileiro valeu como etapa do circuito mundial. O chileno Carlo de Gavardo comemorou muito o vice-campeonato do rali. Afinal, o resultado lhe rendeu o bicampeonato mundial para motos até 450 cilindradas. Por fim, nos caminhões, algo inédito. Os regulares Amable Barrasa e José Papacena venderam mesmo sem ganhar nenhuma etapa.
Diário de um navegador
Por Julio Calmon, do Jornal do Brasil
Sertão: zona pouco povoada do interior do país, em especial do interior semi-árido, mais seca do que a caatinga, onde a criação de gado prevalece sobre a agricultura, caracterizada pelas tradições e costumes antigos. É o que dizem os dicionários. Bem, eu estive lá. Quer dizer, perto. Fui para cobrir o Rally do Cerrado, digo, dos Sertões. Rodei por parte do Centro-Oeste e Norte do Brasil, contemplando a bela paisagem de árvores baixas e retorcidas que cresceram sobre um tapete de vegetação bem rasteira. Um verde quase marrom.
E, para meu deleite, acabei participando efetivamente da prova. Havia um carro na competição que revezava jornalistas como navegadores. Por sinal, uma das grandes surpresas do rali. Pilotada por Norton Lopes, a picape de número 240, uma Mitsubishi L200 RS (versão de competição da L200 Sport), foi um sucesso. A cada etapa, gritos de alegria eram disparados na sala de imprensa.
Escolhi a terceira etapa, entre São Félix do Araguaia (MT) e Santana do Araguaia (PA), a primeira que tinha navegação com GPS. Um dia antes, ainda em São Félix, tive que assistir ao briefing (onde a planilha é passada ao competidores e são acertados os últimos detalhes). E foi ali, num restaurante às margens do Rio Araguaia, que tive a sensação que ia ter trabalho no dia seguinte.
- Trecho do km 26, lombadas de quatro curecas; km 42, cuidado com a ponte de madeira de três curecas - dizia alguém no microfone.
Aliás, cureca define o nível de periculosidade de cada obstáculo, que pode ser de uma até quatro curecas. Passei a madrugada lendo a planilha. Largamos às 10 horas, naquela ensolarada terça-feira. A especial (na verdade, o trecho que vale realmente) começava logo no início da etapa.
- Lombada duas curecas no km 45; depressão três curecas no km 80; km 93, cerca logo à esquerda - cantava eu. E, apesar da planilha estar equivocada muitas vezes, eu me saí bem.
Chegamos em décimo nessa etapa. Olha que 80 duplas estavam disputando o Cross Country nos carros. A suspensão da L200 é uma maravilha. Saltos enormes não eram o bastante para tirar a nossa brava Mitsubishi do rumo.
O maior problema que enfrentamos foi a poeira. Era impossível enxergar algo, principalmente quando havia outro carro à frente. No deslocamento, lembro que paramos em um posto de gasolina para beber um refrigerante. Ainda vestido de macacão e com capacete na mão, passei por um interrogatório dos populares:
- Você está correndo? Por qual equipe? Já foi campeão? Me dá um autógrafo? Posso entrar no carro? Tem um boné?
Não saí mais do carro. Só em Santana do Araguaia, na chegada. Tive sorte na minha experiência. Dois amigos jornalistas passaram por situações difíceis. Martin Fernadez, 24 anos, repórter do jornal A Notícia, de Santa Catarina, teve problemas mecânicos com o carro e ficou o dia inteiro pastando no deserto Jalapão, sob um sol de rachar a cuca. Já Paula Parreira, 22 anos, do Diário da Manhã, de Goiás, capotou com o carro durante o deslocamento. Mas ela e o piloto ficaram bem.
- Não gostei e não quero navegar nunca mais. É legal, emocionante e tal, mas eu não suportei os sacolejos do carro - reclamou a jovem repórter. Aliás, opinião bem oposta deste repórter que vos escreve, ainda contagiado pela aventura no cerrado.