Passado e presente de um bicampeão
Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo é a linha de frente repetida várias vezes por Djalma Santos. Parece que não sai da memória e do pensamento, que são completamente nítidos e acertados aos 80 anos, uma semana antes de o bicampeão mundial completar 81. O ex-jogador, que esteve em quatro Copas do Mundo (1954, 58, 62 e 66), visitou o Goiás na semana passada. Foi homenageado com uma placa e uma camisa.
É irônico que uma linha de frente do Botafogo seja a lembrança mais emblemática do futebol jogado no passado para um paulistano. E é justamente sobre a época em que a rivalidade entre Rio e São Paulo era grande até mesmo nas convocações para a seleção. Djalma Santos prova que as brigas eram mais vivas para a cartolagem. "Naquela época, o Botafogo tinha cinco jogadores na frente, jogava com pontas. Hoje, os times jogam com dois ou um no ataque", diz Djalma, que refuta a pecha de saudosista.
A relação com a cartolagem também é um diferencial para o ex-lateral-direito, que se tornou ídolo principalmente de Palmeiras e Portuguesa. "Fomos pelo caminho certo. A gente jogava aberto com eles e eles com a gente." O que até hoje é meio que um tabu, é dito sem cerimônia pelo bicampeão. "Sexo, por exemplo. Sempre teve. Não tinha problema antes dos jogos. A gente fazia sem excesso. Não tem nada de mais", diz o ex-jogador, que repete também o que já disse em outras reportagens - "Ainda bato uma bolinha. Para não enferrujar".
Priorizar o grupo é o diferencial para se ganhar uma Copa. Djalma Santos conta que existia união entre elenco e comissão técnica em 1962, quando venceu sua segunda Copa, no Chile. "Mas o título mais marcante é sempre o primeiro, que ganhamos dos donos da casa na final", lembra, referindo-se à taça de 1958, conquistada na Suécia, com vitória na decisão por 5 a 2 sobre os suecos.
Sobre Dunga, Djalma Santos, que hoje mora em Uberaba (MG), afirma que o treinador está tentando "trazer o grupo para perto". É por isso que sua opinião, no momento, é a de não levar à Copa da África do Sul a dupla de Ronaldos - Fenômeno e Gaúcho. "É igual quando o Felipão não levou o Romário. Tem que levar os jogadores que estão 100%, mentalmente e fisicamente", diz. "Espero que a seleção faça boa figura. Todo mundo vai querer ganhar do Brasil", finaliza o ex-jogador, que acredita que Kaká será o grande craque da Copa de 2010.
É bom ouvir as risadas de Djalma Santos ao contar a saga da seleção quando retornou da Suécia, em 1958, com o primeiro título mundial na bagagem. Ele parece se divertir de novo. Segundo ele, como os aviões daquela época não tinham tanta autonomia de voo, era preciso fazer escalas. O roteiro foi Estocolmo-Paris-Lisboa-Recife-Rio. E só não houve comemoração em solo francês. "No Recife, desfilamos em carro aberto e voltamos para o avião. Chegando ao Rio, em Campos, aviões da FAB começaram a nos escoltar", afirma. Como Djalma morava em São Paulo, havia mais festa ao chegar à capital paulista - morava no bairro Parada Inglesa, na zona norte.
Djalma Santos não se esquece de comentar a falta de memória do futebol brasileiro. Sugere que os ídolos são esquecidos, diz que Lula não deu prosseguimento ao plano de criar a aposentadoria para os ex-jogadores e que a CBF "não dá satisfação". Cita Bellini, Gilmar e De Sordi, além de Orlando Peçanha, morto recentemente. E, modéstia excessiva ou não, mostra o espírito do jogador de seleção que foi: "Essa homenagem aqui (no Goiás) deixa a gente lisonjeado, de saber que a gente fez alguma coisinha no futebol. E não foi mais que a obrigação".
* Na foto, estamos na sala do Paulo Lopes no CT do Parque Anhanguera. Crédito: Rosiron Rodrigues/Goiás Esporte Clube.


4 Comments:
Bacana demais! Djalma só esqueceu que foi bicampeão em 1962, não em 1968.
... mas o cara tem crédito.
Muito bom o texto e a entrevista. Parabéns pelo trabalho, deve ser ótimo ouvir histórias de personalidades como o Djalma Santos.
Ele foi o primeiro lateral a conseguir lançar a bola com as mãos até a área (como vários fazem hoje em dia, inclusive o Roberto Carlos), na cobrança de lateral. Outra jogada característica dele era levantar a bola com a esquerda e depois bater com a direita, para fazer lançamentos (tal qual ocorrem em jogos de futebol de areia).
* Só duas correções:
no terceiro parágrafo ele está como lateral-esquerdo, mas ele era lateral-direito (inclusive foi escolhido o melhor da posição em 1958, mesmo tendo jogado apenas a partida final).
no quarto parágrafo fala sobre a união na Copa de 1968, mas seria de 1962, a do Chile.
É um orgulho e uma oportunidade única poder estar ao lado de um ex campeão como Djalma Santos não é?
Guarde para sempre estes momentos inesquecíveis. Beijos. Marli
Ae, ae. Demorou mas liberei os comentários.
E que beleza. Um monte de coisa errada. Sem revisão, dá nisso. Rsrsrs.
Então, já corrigi. 1962 e lateral-direito. Lateral-esquerdo era o Nílton Santos, que é o cara que sempre quis entrevistar. Dizem que ele foi o primeiro lateral a apoiar, subir para o ataque. E tem mesmo esse lance aí de cobrar o lateral na área do Djalma. Pronto. Tudo certo, agora.
Valeu pelas correções, gente.
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